3.8.06

Essa tal dança contemporânea...

Esta tal de dança contemporânea
Airton Tomazzoni

Este texto foi originalmente escrito para a revista Aplauso (nº 70)

– Tu faz dança? Que legal! Mas que tipo de dança?
– Dança contemporânea.
O sujeito fica parado e depois de vencer o constrangimento:
– Mas o que é essa tal de dança contemporânea?

Daí o vivente, que faz dança contemporânea e sabe bem o que faz, se vê em apuros para dar uma resposta clara. Afinal, dança contemporânea não é uma técnica ou método que vem com rótulo. Então, ele arrisca:
– Sabe o Quasar Cia. de Dança? – que o vivente acha referência no país e crê ser bastante conhecida.
O sujeito permanece na mesma.
– E o Grupo Corpo? – ele lembra, já entrando em desespero. – E Deborah Colker? – ainda que não fosse o melhor exemplo que você quisesse dar.
– Ah, já vi na televisão, responde o sujeito finalmente com um brilho no olhar de quem agora pode encerrar a conversa.
E o vivente, com a certeza de que não conseguiu explicar e que melhor que explicar era sugerir que assistisse a um espetáculo.
A realidade é esta que o suposto diálogo acima ilustra. A idéia de dança contemporânea não consolidou uma referência para a maioria do público (e mesmo para a comunidade de dança), ainda mais num Estado que vê com desconfiança aquilo que não é tradição. E isso vale muitas vezes para quem produz, ou acha que produz, dança contemporânea. Basta ver a confusão em tantos festivais competitivos. O território da dança contemporânea é um vale-tudo. Passos de jazz com música experimental. Neoclássico ao som do diálogo dos bailarinos. Dança de rua com um toque de vanguarda. E a obra, nesta lógica estapafúrdia, é avaliada por especialistas de toda ordem, menos de dança contemporânea.
Esta realidade tem como origem a rara circulação de informações e o consumo de informações descontextualizadas e superficialmente elaboradas. A qualidade dessas informações é essencial e precisa ser difundida a quem pretende preparar um treinamento, criar, julgar e apreciar a dança contemporânea. Não dá para saborear morangos e reclamar de que não têm gosto de figos. Ninguém curte uma partida de futebol sem conhecer as regras do jogo. Nesse sentido, é preciso apresentar alguns fatos, ainda que de forma sintética, para que eles possam falar desta tal de dança contemporânea.
Fato 1. A dança contemporânea não é uma escola, tipo de aula ou dança específica, mas sim um jeito de pensar a dança. Forjada por múltiplos artistas no mundo, teve nas propostas da Judson Church, em Nova York, na década de 60, sua mais clara formulação de princípios. Dentre eles, o de que cada projeto coreográfico terá de forjar seu suporte técnico. E que ter um projeto é percorrer escolhas coerentes, como o fez Trisha Brown – e também, longe dali, na Alemanha, Pina Bausch, com sua dança-teatro, nos anos 70. Tal princípio implicou tanto a preservação de aulas de balé nutridas por outras técnicas e linguagens quanto o abandono do balé e a incorporação, por exemplo, de técnicas orientais. Assim, passou a se constituir uma infinidade de alternativas, como o teatro-físico do DV-8 (companhia inglesa composta só por homens, que aborda a homofobia e que recorreu ao uso de corpos que expressam força, agressividade e sexualidade, coisa que o balé não podia fornecer).
Fato 2. Não há modelo/padrão de corpo ou movimento. Portanto, a dança não precisa assombrar por peripécias virtuosas e nem partir da premissa de que há "corpos eleitos". Na dança contemporânea, a máxima repetida por pedagogos ortodoxos de que "não é tu que escolhes a dança, mas a dança que te escolhe" não tem sustentação. E, dessa forma, pode-se reconhecer a diversidade e estabelecer o diálogo com múltiplos estilos, linguagens e técnicas de treinamento.
Fato 3. Dança é dança. A dança contemporânea reafirma a especificidade da arte da dança. Dança não é teatro, nem cinema, literatura ou música. Apesar de poder ganhar muito com a cooperação dessas artes. A dança não precisa de mensagem, de história e mesmo de trilha sonora. O corpo em movimento estabelece sua própria dramaturgia, sua musicalidade, suas histórias, num outro tipo de vocabulário e sintaxe.
Fato 4. The Mind is a Muscle, proclamou Yvone Rainer quando a dança pós-moderna norte-americana abalava o estabilishment. Pensamento e corpo, tão separados na tradição ocidental, não são entendidos como lugares estranhos um ao outro. Até mesmo a ciência já traz evidências de que razão e emoção não são opostos. O pensamento se faz no corpo e o corpo que dança se faz pensamento. Isso não implica uma cerebralização fria, no caminho de uma dança conceitual, nem na biologização vazia da dança. Tal princípio não exime a qualidade técnica, nem o sabor e o prazer de dançar. Ele ressalta a complexidade que precisa ser compreendida.
Tais fatos precisam começar a ecoar, se o objetivo é saber o que é esta tal de dança contemporânea, que as pessoas insistem em dizer que fazem e que insiste em permanecer em cartaz em teatros, calçadas, estúdios. (Não foi à toa que Fato. se chamava o recente e provocante espetáculo da coreógrafa gaúcha Tatiana da Rosa.) Fatos que estão se estabelecendo em obras sensíveis e inteligentes, construídas dentro destes princípios na temporada 2005, em Porto Alegre, como In-compatível, de Eduardo Severino, ou Bu, da Meme – Centro Experimental do Movimento. A mesma qualidade está no trabalho de Nei Moraes, em Caxias do Sul, e Luciana Paludo, em Cruz Alta.
A partir desses fatos, pode-se muito (mas não se pode qualquer coisa). A liberdade trazida pela perspectiva da dança contemporânea não dispensa idéias fortes e a inventividade das grandes obras de qualquer forma artística, nem um domínio técnico (ainda que isso não caiba mais apenas nas esfera do aprendizado de passos corretos). A dança contemporânea evidencia que escolhas estéticas revelam posturas éticas. Numa época de tantas barbáries impostas ao corpo, é preciso recuperar esta ética quando se escolhe fazer arte com o corpo – seja o seu, seja (principalmente) o dos outros.
A dança contemporânea parece ter aceitado a provocação, com ecos de contemporaneidade, de Jean George Noverre. O mestre de dança, em 1760, ao falar sobre o balé e as rígidas regras da dança da época, afirmava: "Será preciso transgredi-las e delas se afastar constantemente, opondo-se sempre que deixarem de seguir exatamente os movimentos da alma, que não se limitam necessariamente a um número determinado de gestos". Num mundo de tantas conquistas e descobertas sobre nós, seres humanos, seria no mínimo redutor ficar tratando a dança como apenas uma repetição mecânica de passos bem executados. Fazer tais passos, na música, ursos, cavalos e poodles também fazem. Creio que o ser humano pode ir mais longe que isso. Talvez este seja o incômodo proposto por esta tal de dança contemporânea. O de que podemos ser mais e muitos.


Airton Tomazzoni é jornalista e coreógrafo.

27.6.06

ABCDança 2006 - Diadema

Diadema recebe o maior evento de dança da região

Entre os dias 22 e 25 de junho, Diadema recebe o maior evento de dança realizado na região, o ‘ABCDança’, uma iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura em parceria com a APBD – Associação Projeto Brasileiro de Dança e recebe o apoio da Companhia de Danças de Diadema e da Funarte - Fundação Nacional das Artes.

Tendo como ponto de encontro, o Centro Cultural Diadema, o evento visa promover o encontro de bailarinos, profissionais da dança, alunos, produtores culturais, governo e população.

Este intercâmbio entre os artistas do ABCD e de São Paulo, pretende expandir a linguagem da dança, discutindo e levantando possibilidades de parcerias. Serão realizados fóruns, oficinas, debates e apresentações que permitam a comunidade uma oportunidade de participar da vida cultural da cidade.

Para a diretora da Companhia de Dança de Diadema, Ana Botosso, responsável pela organização do evento, este encontro é muito importante para todos, mas principalmente para os artistas participantes: “Eles terão a chance de mostrar seu trabalho e de interagir com outros grupos de dança. As oficinas e fóruns sobre arte e cultura também são essenciais para conhecer novas tendências da dança mundial”.

Além dos fóruns de discussão, a população poderá participar de oficinas de dança brasileira, contemporânea e clássica. Espetáculos de companhias de dança do ABCD e de São Paulo serão apresentados em todos os dias do ‘ABCDança’, e após cada apresentação seguirá um bate papo com a platéia: “Será um painel da dança na região, com momentos de reciclagem e reflexão diante das questões culturais atuais”, diz Ana Bottosso.

Programação: O evento tem inicio na quinta, (22), às 20h com os grupos, Mão na Roda, Danceato e Companhia de Danças de Diadema. Na Sexta, (23), a população poderá participar da oficina, “Dança Breaking”, com Breno Back Spin a partir das 10h. Às 16h acontece o primeiro fórum: A arte no processo formativo, com Helvio Tamoios (FUNARTE/SP). E, às 20h, se apresentam os grupos, Passo a passo, Art’e., Corppoema, Cia de Dança da Melhor Idade, Movimento e Sabedoria, e o grupo Staccatto, de São Caetano do Sul..

No Sábado, (24), às 14h, a bailarina e coreógrafa Fabiana Villas Boas, ministra uma oficina de Dança Contemporânea. Às 16h, acontece o segundo fórum: Experiências a partir das interações entre as linguagens artísticas, com Ilo Krugli (Teatro Vento Forte). Às 20h, tomam o palco do Teatro Clara Nunes a bailarina Ivonice Satie e o Grupo Jovem do Studio 3 (São Paulo), Vandance (São Bernardo), Terpsícore (Diadema), Grupo Gesto Paralelo (Guarulhos) e Kairós Cia de Dança (Santo André).

A oficina, Dança para crianças, com Uxa Xavier, e o fórum, Compreender mecanismos e processos de uma Escola Livre de Artes, com Kil Abreu (ELT), abrem o último dia do evento, domingo, (25),ambos às 14h. As 20h, o grupo de dança de São Paulo, J.Garcia e Cia, encerra o evento.

Passos de um gesto

Passos de um Gesto

São passos que dizem muito
ou pouco pra quem observa
Pra quem dança são mais que passos
São gestos, elos, frases, sentimentos, alma,
vida...alegria

Paz , liberdade sem precisa voar
mas voar com a mente e ás vezes
se joga no infinitos dos desejos
São pés , mãos , braços paralelos...
Gestos Paralelos

os passos nem sempres são iguais
e o legal é isso
essa mistura de linguagem,
formas e estilos diferentes
que se fundem em um só

Pra conta mais uma vez algo novo e diferente
sempre que novos olhos se fazem presentes....


Sabrina Oliveira
Gesto Paralelo

O Grupo

GRUPO GESTO PARALELO

Grupo de pesquisa em dança contemporânea e dança-teatro, que teve origem em uma oficina de dança contemporânea desenvolvida no Espaço Oficina Cultural, na Vila São Jorge, em Guarulhos. A oficina se encerrou no final de 2005, mas as integrantes permanecem juntas e formam atualmente o grupo "Gesto Paralelo".

Por esse motivo configura-se em uma turma bastante heterogênea, que trouxe experiências diferenciadas tanto em linguagens da dança quanto em outras manifestações artísticas, como teatro e artes plásticas. Este aspecto possibilitou, inclusive, que elementos de diferentes linguagens fossem trazidos para as aulas e para o processo de criação.

O primeiro trabalho do grupo foi "Crônica do próprio encontro" (2005/06).

Aproximem-se......!!!!!!!